Seg - 16/07
29º 17º 13:47
Guaíra - SP

Entrevista da Semana

Elisete Queli Tomé e sua emocionante história de lutas e vitórias

Cidade
Guaíra, 8 de Abril de 2018 - 10h01

Elisete Queli Tomé casou-se aos 18 anos com José Maria Tomé, mãe de Cristiane, Junior e Michele. Elisete é uma das poucas pessoas que expõe as suas ideias com clareza, com lucidez. É guairense de nascimento e passou boa parte de sua infância na Fazenda Vera Cruz, mas residiu em São Paulo, em Orlândia, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, porém, voltou a sua terra natal onde fixou residência até os dias atuais. Tem o dom da palavra, porque como ela diz sempre: tudo vem do coração. Luta pela causa da mulheres e das pessoas especiais!

 

Qual o cargo que você ocupa hoje?

Já fiz parte de vários conselhos: já fiz parte do Conselho da Consciência Negra; hoje sou Presidente do Conselho Municipal do direito das Mulheres, sou Presidente do Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência, já pleiteei ao cargo de Vereadora, já fiz parte da Diretoria de Apoio da APAE, já fui Avó conselheira de Escola… já fiz de tudo um pouco!

 

Família

Nasci numa família humilde, mas que tinha um dom muito grande de auxiliar o próximo! Apendi dentro do lar a contribuir com nosso semelhante. Quando me casei Deus me presenteou com uma filha especial – a Michele.

 

Fale um pouco da Michele?

A Michele veio especial e eu percebi que através da convivência com ela eu poderia fazer muito mais pelas pessoas também especiais. Deus colocou tantos anjos em minha vida, que começamos a lutar para minimizar o sofrimento das famílias. Eu vi que poderia fazer muito mais pelas pessoas com necessidades especiais através da Michele. Na verdade, no início eu achei que era um problema, mas era uma dádiva, um presente e tenho muito orgulho em falar disso, porque foi uma aprendizagem que não encontro palavras para transmitir o que foi a Michele na minha vida.

 

Há ainda algum preconceito?

Ainda existe! Quando minha filha nasceu era muito mais. Hoje, se a Michele estivesse aqui estaria com trinta e cinco anos. Há trinta e cinco anos eu não saberia como lidar com isso. Era tudo muito difícil. Não se viam pessoas com deficiência nas ruas. Então eu disse para Deus: “O Senhor me mandou ela assim, eu aceito, então me mostre um caminho”. Com a mão de Deus a gente não brinca! E Ele me respondeu! As pessoas foram aceitando minha filha e as coisas foram acontecendo! Um dia fui levá-la ao médico em Araçatuba e me encontrei com uma mãe com duas crianças especiais. Elas estavam em uma dessas cadeiras de alpendre adaptadas com rodinhas. Aquela mãe não tinha um filho especial, tinha dois! Então fiquei com vergonha de mim! A minha filha tinha uma cadeira confortável para se locomover, tinha milhões de amigos, Deus abriu tantas portas e eu fiquei pensando naquela mãe!!! Tirei uma lição da força daquela mãe!

 

Se ela não tivesse vindo especial, você seria a mesma Elisete?

Acredito que, talvez, eu tivesse estudado, tivesse feito uma faculdade e seria uma mãe como tantas mães com seus afazeres domésticos. Mas, visto que minha filha veio especial, na época em que ela nasceu eu me revoltei muito. Eu brigava muito com Deus! Eu brigava, eu não aceitava, não aceitava! Eu via as outras crianças que andavam, falavam, queria que minha filha também fizesse essas coisa tão comuns! Ela chorava, pedia para andar! Eu chorava muito também, porque eu não tinha o direito de dar falsas esperanças. Então, me ajoelhava no chão e pedia socorro para Deus! Aí, Ele começou a me mostrar muitas coisas que me fizeram ver o outro lado. Ele me deu sabedoria! Ele me impulsionou a ir à luta. Comecei a andar a pé com a Michele porque percebi que as pessoas tinham que vê-la, respeitá-la e aceitá-la. A partir daí, ficou mais fácil porque as mães vieram atrás de mim e fui abraçando a causa dessas pessoas e nunca mais consegui largar isso. Amo o que faço e faço por amor.

 

Falta muito para dar uma vida mais digna aos especiais?

Na verdade há muitos anos nós fundamos uma Associação e, através desta Associação, tivemos muitas conquistas. Hoje, a associação – que leva o nome dela – está parada, ela existe, mas está sem fazer nenhuma ação. Mas, existe o Conselho Municipal de Pessoas com Deficiência e através dele minha luta continua como se fosse uma Associação. Temos neste conselho pessoas que somam, como Serginho Suzuki, Zé Carlos Augusto e tantas outras que cada vez que surge um problema eles resolvem. Tem a questão do trânsito, das vagas, dos direitos, da forma que somos ouvidas e as coisas vêm acontecendo. O Capitão Hannickel, por exemplo, todas as vezes comparece nas reuniões, explicando as questões das vagas, orientando. É uma parceria que se junta o Poder Público e Sociedade civil… E vem vindo a área azul, que acreditamos que vai melhorar ainda mais na conscientização tanto para o idoso como para os deficientes.

 

É gratificante participar de todos estes conselhos?

É muito prazeroso! Eu diria mesmo que hoje não sei mais viver sem estar me doando às necessidades da sociedade. Faz parte do meu dia a dia.  Através da minha filha Michele é que eu pude prestar estes serviços.

 

E depois que ela partiu?

Quando eu a perdi, pensei que não conseguiria mais continuar! Mas, Deus falou comigo. Ele disse “Vai! Pegue o seu cajado e Vai…” Então, estou indo! Já faz doze anos que ela se foi e eu ainda estou na luta! Preciso disso até por uma questão de sobrevivência (muito emocionada), não tem como não me emocionar ao falar da Michele!

 

Mesmo sendo uma pessoa especial, Michele dançou…

Ah, sim a Michele dançou! Minha filha participava da APAE e a professora Neusa Faleiros trouxe de Santos a ideia desta dança. Ela viu pessoas com necessidades especiais dançando e pediu para o Ney Tosta (muito emocionada) escolher uma criança para este projeto. O Ney escolheu a minha filha! Quando eles faziam os ensaios, eu queria ir lá ver, participar, mas a Professora Neusa falava: “não, mãe, você só vai ver no dia que eles se apresentarem”. No dia da apresentação, na Casa de Cultura, quando vi o espetáculo, comecei a chorar, chorar muito, fiquei com vergonha, mas quando eu olhei estava a Casa de Cultura toda em prantos!

 

Ney Tosta!

Este anjo foi uma dádiva na minha vida! Escolheu, sem saber, uma das minhas filhas, a Cristiane para participar de um desfile e depois, na APAE, escolheu outra filha – especial – para um projeto de dança! Jamais vou me esquecer de Ney tosta. Ele deixou um legado! Peço de coração ao Poder Público, aos representantes que reconheçam o legado de Ney Tosta! Ele sempre falava que queria ser reconhecido em vida, mas já que não houve esta possibilidade, eu gostaria de pedir aos nossos governantes, ao presidente da câmara, aos vereadores, ao prefeito, que reconheçam o nome do Ney, porque ele atuou em todas as famílias, para o bem, para a reeducação dos nossos filhos, para a felicidade, para o amor, para o lazer, para a terceira idade, para as pessoas com deficiência… Que as pessoas jamais se esqueçam o que ele deixou para nós!

 

Gratidão!

Eu gostaria de agradecer a Deus, aos meus pais, ao meu marido… Agradecer às centenas de anjos que Deus colocou na nossa vida! Se não fossem estes anjos e a Professora Neusa Faleiros é um deles… Pois, minha filha vivia me pedindo para andar, através do projeto da dança, deu mais vida para a Michele e ela se sentiu mesmo uma artista e Guaíra adotou minha filha. Eu agradeço a cada um dos guairenses, porque a Michele não era só da nossa família, ela era de todos, ela era de Guaíra! Então deixo o meu “muito obrigada” a todos, indistintamente. Nossa cidade amou minha filha e isto não tem nada que pague!


TAGS:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

OUTRAS NOTÍCIAS EM Cidade
Ver mais >
Acompanhe nossas atualizações. Siga-nos