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A recuperação de um preso após anos como usuário de drogas

Geral
Guaíra, 17 de novembro de 2017 - 09h51

Sem poder identificar-se, o ex-presidiário contou como saiu do mundo das drogas e sua recuperação, ainda dentro da prisão, através da Narcóticos Anônimos

Muitas pessoas não sabem, mas a Narcóticos Anônimos tem feito a diferença na vida de muitos usuários de drogas, que conseguiram deixar o vício e atualmente batalham, dia após dia, para manter suas rotinas em um emprego e ao lado da família.

Nesta semana trazemos mais uma entrevista de uma adicto, dessa vez, um presidiário, que sofreu as consequências por viver no mundo das drogas, mas que encontrou uma saída no meio deste “inferno”. Confira:

Como conheceu a Narcóticos Anônimos?

Cheguei à NA pela primeira vez em um presídio estadual. Era a minha terceira pena na prisão em um período de sete anos, com apenas alguns meses por vez nas ruas. Uma noite, ouvi que estava acontecendo uma reunião que tinha alguma coisa a ver com drogas. Bom, eu poderia me identificar com isso, então decidi conferir. Seria algo que me manteria fora da cela por algum tempo.

 

Qual foi o resultado desse primeiro encontro com a NA?

Eu me lembro de como estava confuso ao sair daquela primeira reunião. De volta à cela, fiquei remoendo todos aqueles anos de entrar e sair de cadeias e todas as coisas pelas quais passei só para ficar “doidão”. Mais que tudo, percebi o quanto estava cansado de viver esse tipo de vida. Mesmo não vendo NA como solução para a minha loucura, naquelas primeiras reuniões ouvi algumas coisas com as quais me identifiquei e, por isso, continuei voltando.

 

Como você achava que conseguiria deixar de usar drogas?

Ouvi as pessoas em NA dizerem que não usavam mais drogas, nem mesmo maconha. Eu escutei. Eu queria, com certeza, acabar com todas as situações insanas na minha vida, mas não pensava em parar com todas as drogas para conseguir isso. Acreditava que precisava aprender a lidar melhor com as drogas.

 

E você continuou usando drogas, mesmo frequentando as reuniões de NA?

Alguns membros de NA que vinham à prisão para partilhar nessas reuniões já tinham sido internos. Gostei de ouvir essas pessoas contarem como tinham sido e como estavam sendo hoje. Comecei a respeitar as pessoas em NA, que falavam sobre como encontraram uma maneira de viver sem drogas, álcool e cadeias. Mas, continuei a me endoidar na instituição de qualquer maneira que pudesse e, enquanto isso, assistia às reuniões de NA regularmente. Os companheiros me diziam para continuar voltando, “aconteça o que acontecer”, então continuei.

 

E como resolveu parar?

Logo fui transferido para a pré-soltura, uma prisão de segurança bem mais reduzida. Fumei um baseado naquela manhã, antes da longa viagem de ônibus de transferência. Eu não sabia na hora, mas aquele seria o último. Eu estava cansado dessa droga e da vida institucionalizada. A decisão que tomei naquele fia foi principalmente por medo e por algumas das coisas que ouvi naquelas primeiras reuniões de NA. Olhando pela janela do ônibus, enquanto os quilômetros de liberdade passavam por mim, me perguntava por que eu não podia fazer parte daquele mundo? Ficar “doidão” não parecia mais certo. Mas pensar em não usar nada era algo certamente muito estranho. Que alívio descobrir, mais tarde, que era mais fácil fazer isso um dia de cada vez.

 

Como foi o processo para deixar o mundo das drogas?

Nessa prisão, continuei na irmandade de NA e me tornei ativo na parte de serviço do programa dentro da instituição. Durante os últimos seis meses de minha pena, eu acordava de manhã e dizia: “Só por hoje, eu não vou usar nada” e andava na instituição junto com as outras pessoas para me manter afastado da tentação. Havia muitas oportunidades de usar, portanto, não foi nada fácil, mas eu tinha o apoio da Irmandade de NA. Certa vez, me deixaram sair para assistir a uma reunião de NA fora da prisão, o que fez com que eu valorizasse ainda mais a irmandade do lado de fora. Pela primeira vez comecei a frequentar as reuniões limpo e algo aconteceu, o programa começou a funcionar.

 

O que quer dizer com “começou a funcionar”?

Hoje eu sei o que faz a Narcóticos Anônimos funcionar. A gente realmente entende porque o programa só pode funcionar quando estamos em abstinência completa de todas as substâncias alteradoras da mente. Eu também estava começando a entender o que significava se importar: é ajudando uns aos outros que nós conseguimos. Senti que a única pessoa que realmente me entedia era outro adicto e que a única pessoa que poderia me ajudar era um adicto limpo.

 

Desde então, como foram o restante de seus dias na prisão?

Estava tão orgulhoso de poder ficar de pé diante do grupo na prisão e anunciar que tinha 90 dias limpo. Sentir orgulho não fazia parte da minha vida antes de NA. Era um alívio e tanto não ter que dar um jeito de conseguir drogas lá no pátio e fazer de tudo para ficar “doidão”. Eu nunca tinha cumprido pena assim e, com certeza isso, me fez sentir ótimo.

 

E quando saiu?

Seguindo os conselhos que os membros de NA me deram, tomei a segunda decisão mais importante que já tomei na minha vida: de ter alguém de NA no portão para me pegar quando eu fosse solto. Uma pessoa que compreendesse o que eu precisava no meu primeiro dia fora, porque eu certamente não sabia naquele momento. E aquele primeiro dia fora foi tão correto. Fui levado para uma casa onde membros de NA estavam me esperando. Fui a um monte de reuniões aquele dia e, certamente, recebi o amor e o carinho de que tanto precisava, o que pareceu compensar por toda a atenção que fez falta enquanto eu estava trancado ao longo dos anos.

 

O que tem a dizer a outros adictos?

Se você, que usa drogas, está lendo essa entrevista, minha mensagem é para você. Se você está pensando se as drogas, ou o álcool, ou ambos, estão estragando a sua vida, vá à reunião de NA conferir. Você pode estar salvando sua própria vida e pode aprender um jeito melhor de viver. Se um adicto pode conseguir, o outro também pode. Ajudamos uns aos outros em Narcóticos Anônimos.


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